Velhas histórias

quarta-feira, 25 de março de 2026

A VIDA É O QUE É

 




Sinto angústia, medo, frio na barriga, ombros elevados, dentes apertados, dor na nuca quando penso em segurança financeira. Esse sentimento atrapalha o sono, bloqueia-me de fazer as coisas com vigor e foco de 100% de atenção nas outras áreas. Pensando em atingir um limite, esses sentimentos iniciais são elevados a uma assustadora potência se chego numa situação em que não consigo me manter e deixo na mão quem precisa de mim. Talvez aí sim tenhamos o absurdo de Camus, no qual ideias de finalizar o absurdo surgem entre os pensamentos; onde o tal do pensamento intrusivo “e se eu jogar a moto na frente do caminhão?”, “e se eu jogar o carro na ribanceira?” começam a florescer como erva daninha na árvore da vida. São sentimentos ruins, não quero lidar com eles, sei que logo mais vão embora, mas sei que moram na casa ao lado. Vizinhos indesejados. Ganham novas casas quando nos mudamos.

Camus diz que “depois do despertar vem, com o tempo a consequência: suicídio ou restabelecimento.” Vejo o suicídio como um paradoxo. É um ato de covardia e coragem. Desistir de tudo para cessar o sofrimento, reúne ao mesmo tempo, trevas e luz. Não lutar, mas lutar com uma atitude extrema irreversível que terá efeitos em você e em quem está ao seu redor no convívio. A única garantia é a do nada, tem exatamente aquilo que tinha antes de você nascer. Cerca de 100 anos após a morte, suicídio ou natural, para o nada voltaremos – temos duas mortes, duramos 3 gerações. Já o restabelecimento vejo como um conformismo, uma anestesia, é uma oscilação entre melhor e pior status social designado por quanto você ganha, o quanto de acessos te são permitidos. Melhores médicos, remédios, alimentação, lazer, cultura... tempo... Mais ou menos oxigênio para viver, e na grande maioria das pessoas, sobreviver.

Assim como um efeito dominó, essa “náusea” me leva a pensamentos que tento sufocar com entretenimento barato; YouTube, Instagram, livro furreco, me jogar nos estudos. O confronto vai ficando de lado, criando raízes, indo até sabe-se onde; sei que um dia ele vai cobrar a conta. Na verdade, ele já manda alguns boletos quando não consigo dormir, manda alguns boletos quando não sei reagir a uma situação que demanda enfrentamento, seja numa injustiça que sofri como uma cobrança indevida ou quando um colega produz um comentário maldoso e não soube me defender naquele momento.

Quando tento elaborar um jeito de sair dessa situação penso em algumas estratégias: analisar o sofrimento, fazer terapia, conversar com um amigo (nem sei mais se tenho amigos mesmo ou somente pessoas que escolho compartilhar alguns momentos juntos para alívio de sofrimento). Analisar o sofrimento exige tempo, dor, cansa fácil – o entretenimento barato ganha na maioria das vezes. Terapia exige dinheiro, quando se tenta pelo serviço público temos a demora, e das experiências que tive, é altamente ineficaz. Amigo, talvez como escutei a vida toda e hoje vejo como proletariado, é “dinheiro no bolso”.

Talvez daqui a algum tempo, lendo outro autor, esse texto perca seu sentido. De absurdo em absurdo ainda prefiro ser essa metamorfose ambulante.


sexta-feira, 18 de julho de 2025

UM ALL STAR AMARELO

 


Outro dia, enquanto me empenhei em ficar longe de celular, decidi ir até a padaria a pé. Tomar um ar gelado de Barbacena, uma fagulha de Sol num céu azul e cinza para esquentar a pele e a alma. Talvez, na verdade, fui procurar coragem para animar e fazer as coisas que temos que fazer no dia a dia, de limpar a casa a estudar, passear com os cachorros a pagar as contas.

Foi em um dia qualquer, a rua estava vazia de gente. Lembro que foi bem cedo. Durante o caminho a cabeça foi se policiando para pensar no que tinha o que fazer durante o dia e competindo com não pensar o que tinha que fazer para poder curtir o momento da caminhada. Foi só uma ida até a padaria, mas quando você está no meio de uma rotina de muito tempo a mesma coisa, 15-20min já dão uma quebrada na monotonia e na mesmice.

No meio da rua, um pouco depois do radar de velocidade, tinha um All Star amarelo, cano médio, pé esquerdo, só, único, jazendo, cara de tênis novo. A parte branca nem estava suja, não tinha rabiscos nem desenhos de caneta no tecido, nem cadarço colorido. Procurei ao redor evidências do seu irmão ou de qualquer coisa que justificasse ele estar ali... nada.

Então, deixo aqui histórias que quero acreditar que aconteceram:

1

Uma pessoa teve uma noite muito divertida, sentiu-se leve, fazia tempo que não gargalhava, saiu com amigos, brincou, pulou, gritou. Fez o que quis, riu... sem máscara, xingou... sem máscara. Durante a madrugada na rua, sentiu que o tênis novo – e sempre gostou tanto de all star – estava incomodando, tava machucando. Ele não pode estragar esse momento que estava vivendo, não é compatível com a pessoa que o estava vestindo. Percebendo que o mundo é agora, desamarrou os dois cadarços, deixou o tênis preso na ponta do pé e, sem falar para ninguém, lançou o tênis com um chute tremendo para cima, um de cada vez. Um caiu no meio da rua, o outro no quintal de alguma casa, onde não dava para pular o muro caso quisesse recuperá-lo. Sensação de liberdade, mesmo com o chão gelado. Não tinha problema, o álcool esquenta. Desnó. A catarse representada em um all star amarelo.

 

2

Uma mãe, uma vó e 3 filhos num Ford K baratinha, todos apertados. Mãe dirigindo, avó no banco da frente. As 2 filhas pré-adolescentes de 11 e 14 anos e a criança de 6 anos no banco de trás. Depois de muito tempo e com a mancada do pai que desmarcou a viagem com suas crias pela 3ª vez, a mãe decidiu de última hora que seus filhos vão viajar sim. Juntou um pouquinho que tinha com o dinheiro que recebeu do imposto de renda, alugou um airbnb. No fundo, essa mãe ainda idealiza a família unida, com todos juntos e felizes, mas deixa essa ideia num coração bem pequeninho, escondido, que fica do lado do coração do sangue. Sabe que esse último filho foi quando se deixou cair no conto do canalha mais uma vez.

Todos queriam ir para praia, e daqui de Barbacena provavelmente estavam indo para Guarapari. Fico impressionado que, para os mineiros, quase 8 horas de viagem nem é tão longe assim. As filhas com olhos brilhando quando a mãe contou que iam para praia, logo depois de estarem vermelhos com a notícia que o pai cancelou o passeio das férias mais uma vez. Confusão rapidez com arrumação pega os remédios da vó vê se desligou o gás não esquece seus biquinis tenho que abastecer o carro onde deixei meu cartão vai dar tudo certo, se não der a gente vai fazer dar. A menina de 14 anos estava toda orgulhosa porque com seus últimos salários com os bicos de tia que cuida das crianças nos brinquedos infláveis e como garçonete em casamento, conseguir por cílios, comprar seu celular com uma capinha fofa e seu all star amarelo igual da Billie Eillish, sua cantora favorita.

Durante a saída do carro, nas primeiras ruas, sentiu tudo e todos socados no carro, pensou que tinha até pouco espaço pra respirar. Bolsa do bebê na parte de trás do banco, junto com travesseiros, bolsa térmica e seu all star. Estava com seu celular na mão. Estava no silencioso. Recebeu uma mensagem do pai, não quis falar para ninguém. Dizia que estava bravo que como tinha que pagar pensão não tinha dinheiro para viajar. Guardou para si. Com o remelexo do carro, seu irmão pulando, a avó pedindo para baixar o som, a irmã doida pra mexer no celular da mais velha, um dos all star caiu no seu colo. Olhou para ele, sentiu raiva. Pensou que talvez se tivesse dado o dinheiro para seu pai ao invés de comprar o tênis, ele estaria ali. Talvez pudessem ser uma família “normal”. Engoliu o choro para a alma, abriu o vidro e o jogou pela janela.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

BEATRIZ

"The Little Shepherdess" – William-Adolphe Bouguereau (1889)


Esses dias eu tava pensando nos diferentes tipos de amor que existem, ou na verdade, os diferentes tipos que eu conheço. Por favor, não pensar em ‘felizes para sempre’, príncipe e princesa, filmes Disney etc.. Desencante o mundo, afinal o amor real, da carne, pode ser sublime.

Um desses amores, aliás... já parou para pensar que quando alguém ama, como sabe que ama? O que sente? Ao que se refere quando fala que ama?

Quando você está com saudade, você AMuA, gera algum grau de tristeza, algum grau de ansiedade, diminui sua potência de agir. E quando ama... paz? Leveza? Aumenta sua potência de agir? Medo de perder o objeto do amor que você não sabe nem definir o que é?

Numa dessas rolagens de rede social, coisa de segundos, apareceu uma frase solta de um irmão que cuida de uma irmã. Sabe aquelas mensagens/fotos que você simplesmente rola, não para para pensar, buscando a tal da dopamina que o pessoal da internet tanto fala, uma passagem de dedo e sumiu. Por algum motivo, essa mensagem ficou igual a uma farpa no dedo, vira e mexe, incomodava. 

Fiquei pensando na minha irmã. Cara, como pode amar alguém desse tamanho? Durante o dia lembrei de várias cenas quando pegava ela no colo quando ela foi bebê, quando eu a tirava do berço e tentava acalma-la do choro. Principalmente quando estávamos só os dois em casa; só tinha eu para cuidar. Das vezes que pegamos ônibus juntos quando eu buscava ela na creche. Da admiração que eu tinha para cada marca do desenvolvimento que ela atingiu. Lembro quando eu perguntava, quando ela foi uma criança um pouquinho maior, “quanto custa uma casa? 14. E uma moto? 48. Uma menina que nunca foi chegada em boneca ou panelinha, mas sim em adrenalina. Pular, correr, subir, dançar.

Hoje ela é uma mulher jovem, 18 primaveras, faz faculdade; faz bicos para se virar com dinheiro, gosta de gente, gosta de viver. Não cumpriu com algumas projeções que eu tentei induzir. Tomou o próprio caminho. Acompanhei de longe. Fui estudar fora. Se tivesse que rotular um preço pago por sair de casa, foi o de acompanhar de longe sua metamorfose, sua formação de caráter. Uma das expectativas que criei foi de ela não ser inocente a ponto dos outros a fazerem de besta. Na proporcionalidade, afinal ela é jovem, deu certo, pois já vi ela fazendo os outros de besta, principalmente os mil namorados.

Não penso em arrependimentos, penso em cicatriz da escolha.